QGIS 4.0 chegou e não é uma atualização comum

Em 6 de março de 2026, o projeto QGIS lançou a versão 4.0 “Norrköping”. É a primeira versão com número major desde o QGIS 3.0 “Girona”, lançado em fevereiro de 2018. Oito anos de série 3.x chegaram ao fim.

A mudança mais importante não está na interface. Está na base: o QGIS 4.0 migrou do framework Qt5 para o Qt6. Isso afeta desempenho, segurança, compatibilidade com sistemas operacionais modernos e, principalmente, a compatibilidade dos plugins que você usa hoje.

Para quem usa QGIS em produção — licenciamento ambiental, gestão municipal, geoprocessamento agrícola — essa atualização merece atenção antes de clicar em instalar. Não porque seja arriscada de forma absurda, mas porque algumas decisões precisam ser tomadas antes de migrar.

Por que o número mudou para 4?

Versões com número major geralmente indicam quebra de compatibilidade. No caso do QGIS 4.0, a quebra é real, mas limitada: ela afeta principalmente desenvolvedores de plugins e scripts Python que usam APIs antigas do QGIS 2.x.

O Qt6 é a versão mais recente do framework de interface gráfica em que o QGIS é construído. A migração estava planejada há anos. O Qt5 deixou de receber suporte de segurança ativo, e manter o QGIS nele por mais tempo seria acumular dívida técnica.

Na prática, para o usuário comum que não escreve plugins, a interface do 4.0 é reconhecível. Os menus estão nos mesmos lugares. Os fluxos de trabalho são os mesmos. O que muda é que projetos grandes abrem mais rápido, o software trava menos e algumas funcionalidades novas passam a estar disponíveis.

Para quem desenvolve ou depende de plugins específicos, a história é diferente. Vale ler a seção sobre plugins antes de atualizar.

O que tem de novo no QGIS 4.0

O changelog oficial lista mais de 100 novas funcionalidades. Separei as que têm impacto direto no trabalho cotidiano com geoprocessamento no Brasil.

Interface

A tela de boas-vindas foi redesenhada — visual novo, mais limpo, com acesso rápido a projetos recentes e recursos da comunidade.

Agora é possível criar barras de ferramentas e menus personalizados dentro do QGIS. Se você faz sempre a mesma sequência de operações, pode montar uma barra com exatamente as ferramentas que usa, sem ficar caçando nos menus. Parece coisa pequena, mas quem passa o dia inteiro no software sabe o quanto isso importa.

Temas visuais do QGIS agora podem ser distribuídos como plugins. Antes, temas como “Night Mapping” ou “Blend of Gray” precisavam entrar no core da aplicação para existir. Agora qualquer desenvolvedor pode criar e publicar um tema sem depender do ciclo de release do projeto.

O duplo clique na tabela de atributos passou a selecionar a feição e dar zoom automático nela. Simples. Demorou oito anos para chegar, mas chegou.

Simbologia e Estilos

A cópia de estilos entre camadas ficou mais inteligente. Antes, copiar e colar estilos entre camadas era uma operação por vez. Agora o QGIS permite copiar todos os estilos de uma camada de uma vez e colar em outra — incluindo estilos nomeados.

Isso tem valor real em projetos grandes, quando você tem uma camada de municípios estilizada de cinco formas diferentes para contextos diferentes (mapa temático, cartografia de referência, mapa de localização) e precisa replicar isso em outra camada.

Rotulagem

Dois problemas antigos de rotulagem foram endereçados.

O primeiro: em linhas longas com palavras grandes e espaçamento amplo, o QGIS às vezes bloqueava outros rótulos de aparecer no espaço em branco entre as palavras. Agora existe uma opção para ignorar espaços em branco na detecção de colisão de rótulos — útil para rotular rios e estradas longas.

O segundo: geometrias multipartes agora têm um controle mais refinado de rotulagem. Além de “rotular a maior parte” e “rotular todas as partes”, existe uma terceira opção: distribuir as linhas do rótulo entre as partes da geometria. Para municípios com ilhas ou baías, isso resolve situações que antes exigiam gambiarras.

Anotações

A ferramenta de anotações passou por uma reforma relevante. Agora existe uma ferramenta de seleção dedicada para anotações, com suporte a mover, redimensionar e rotacionar múltiplos itens de uma vez. Em projetos 3D, anotações de texto e marcadores podem ser renderizados como billboards — elementos que ficam “flutuando” sobre o terreno, sempre voltados para a câmera.

Ferramentas de digitalização

Uma nova ferramenta permite copiar feições em matriz ao longo de uma linha. Funciona para pontos, linhas e polígonos. Se você precisar distribuir postes igualmente ao longo de uma estrada ou replicar parcelas agrícolas seguindo o traçado de um canal de irrigação, essa ferramenta resolve.

Também chegou uma ferramenta para editar segmentos em branco em simbologias de linha template — útil para quem trabalha com representação de redes técnicas (saneamento, energia, drenagem).

Geoprocessamento e Dados

Um novo algoritmo de identificação de dados usa o GDAL 3.13+ para extrair metadados de rasters automaticamente. Menos trabalho manual para catalogar imagens.

O processamento temporal para camadas raster ganhou uma opção de acumulação de pixels, equivalente ao que as camadas vetoriais já tinham. Para quem trabalha com animações temporais ou análises de mudança, isso resolve um descompasso que existia entre os dois tipos de dado.

Plugins: o que funciona, o que não funciona

A migração para Qt6 exige que os plugins sejam atualizados para funcionar corretamente. O projeto QGIS manteve compatibilidade retroativa com APIs antigas onde possível, mas APIs do QGIS 2.x, incluindo partes da Processing API daquela época, não têm garantia de continuidade no ciclo 4.x.

Na prática, isso significa:

Plugins populares e ativamente mantidos provavelmente já foram atualizados ou vão ser atualizados rapidamente. O Semi-Automatic Classification Plugin (SCP), o QuickMapServices, o HCMGIS. todos têm comunidades ativas de manutenção.

Plugins de nicho ou abandonados podem parar de funcionar sem aviso. Se você depende de um plugin que não recebe commits há mais de um ano, vale verificar se ele tem suporte declarado para Qt6 antes de migrar.

O projeto disponibilizou um guia oficial de compatibilidade Qt6 para desenvolvedores (no GitHub do QGIS). Se você mantém scripts Python que chamam o QGIS programaticamente, esse guia é leitura obrigatória.

QGIS 4.0 ou QGIS 3.44 LTR? A decisão honesta

O QGIS 3.44 “Solothurn” foi lançado em junho de 2025 como a versão final da série 3.x e a última LTR (Long-Term Release) antes da transição. O suporte ao 3.40 LTR foi estendido até maio de 2026. O primeiro LTR da série 4.x será o QGIS 4.2, previsto para outubro de 2026.

O que isso significa na prática:

Se você trabalha em ambiente de produção estável — uma prefeitura com 10 técnicos usando QGIS todos os dias, uma consultoria ambiental com fluxos de trabalho estabelecidos — espere o QGIS 4.2 LTR em outubro de 2026. Não porque o 4.0 seja instável, mas porque LTR significa ciclo de suporte mais longo e menos surpresas com breaking changes.

Se você é um usuário independente, desenvolvedor ou quer experimentar as novidades, o 4.0 já está estável o suficiente. Instale em paralelo com o 3.44, teste seus projetos e plugins antes de migrar definitivamente.

Se você mantém infraestrutura com QGIS Server, a cautela é ainda maior. Ambientes de servidor têm dependências adicionais de bibliotecas que a migração Qt6 pode afetar de formas não imediatas.

Como instalar o QGIS 4.0

O instalador oficial está disponível em qgis.org/download. Funciona em Windows, Mac e Linux.

No Windows: o instalador standalone é a opção mais direta. Para quem usa o instalador OSGeo4W (mais comum em ambientes corporativos), o processo é o mesmo — mas verifique se outras ferramentas do OSGeo4W que você usa têm versões Qt6.

No Linux: os repositórios oficiais do QGIS para Ubuntu e Debian já têm o 4.0. O processo de adicionar o repositório QGIS é o mesmo de sempre — a diferença está na URL do repositório, que agora aponta para a série 4.x.

No Mac: o instalador .pkg está disponível no site. Usuários de MacPorts podem atualizar pelo sistema de pacotes normalmente.

Uma dica: instale o 4.0 numa pasta separada da sua instalação 3.x, pelo menos durante o período de testes. No Windows, o instalador standalone já faz isso por padrão. No Linux, você pode manter as duas versões instaladas simultaneamente usando os repositórios corretos.

O que fazer antes de atualizar

Antes de migrar qualquer ambiente de trabalho para o QGIS 4.0, abra o gerenciador de plugins no QGIS 3.x e anote os que estão ativos. Depois verifique em plugins.qgis.org se cada um tem versão declarada compatível com QGIS 4. Esse passo sozinho resolve a maioria dos sustos pós-migração.

Se você tem scripts PyQGIS, rode-os no 4.0 antes de migrar definitivamente. Erros de importação são os mais comuns nessa transição — e geralmente são simples de corrigir quando você sabe de onde vêm.

Faça backup do perfil de usuário do QGIS. Ele fica numa pasta específica por versão (em Windows, algo como AppData\Roaming\QGIS\QGIS3) e contém configurações, plugins instalados e modelos de Processing. Seus dados geoespaciais ficam nos próprios arquivos e não correm risco, mas perder configurações é inconveniente.

E uma recomendação que vai contra o impulso natural: não atualize só porque o 4.0 está disponível. É uma versão regular, não LTR. O ciclo de suporte dela é menor que o do 4.2 que chega em outubro. Se você tem um ambiente de trabalho estável e não quer lidar com imprevistos, esperar três meses é uma decisão completamente razoável.

Perguntas frequentes

Meus projetos do QGIS 3.x abrem no 4.0?
Sim. O formato de projeto (.qgs e .qgz) é compatível. Você pode abrir projetos criados no 3.x sem problemas. Salvar um projeto no 4.0 pode impedir que ele abra em versões mais antigas, dependendo de quais funcionalidades novas forem usadas.

Meus shapefiles e GeoPackages funcionam normalmente?
Sim. O QGIS 4.0 não mudou nada no suporte a formatos de dados. Shapefiles, GeoPackages, PostGIS, GeoTIFFs — tudo funciona igual.

O QGIS 4.0 é mais rápido?
Em projetos grandes, sim. A migração para Qt6 traz ganhos reais de performance, especialmente na renderização e na abertura de projetos pesados. Não é transformador para projetos simples, mas quem trabalha com rasters de alta resolução ou projetos com dezenas de camadas vai notar diferença. Vale a pena só por isso.

E o PyQGIS? Meus scripts vão quebrar?
Depende. Scripts simples que usam a API do QGIS 3.x provavelmente funcionam. Scripts que dependem de APIs marcadas como deprecated no 3.x — especialmente partes legadas da Processing API do QGIS 2.x — podem precisar de atualização. O guia oficial de migração Qt6 (no GitHub do QGIS) explica o que mudou na API.

Quando sai o QGIS 4.2 LTR?
A previsão é outubro de 2026. Será o primeiro LTR da série 4.x e o release recomendado para ambientes de produção estáveis.